terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Luz e sombra

O que nos ilumina por dentro, fornece o combustível diário para o que refletimos do lado de fora. Não é por acaso que a maioria dos livros de desenvolvimento pessoal, assim como a evidência científica, nos fala sobre a importância de nutrir a nossa mente com pensamentos positivos, e encontrar fontes de motivação que nos levam a  descobrir o nosso potencial. No entanto, alguns seres têm a capacidade de tocar o nosso interior quando se dão de forma autêntica, sem receio de desnudar a sua alma, e assim despidos conseguem chegar ao coração do outro. Quando isso acontece sabemos que ambos se transformam mutuamente em pessoas melhores. É o que está a acontecer de uma forma crescente, pura e límpida. Esse é o lado solar e radioso de um ser; aquele do qual nos orgulhamos e que queremos mostrar na relação com o outro. No entanto, apesar de todos os brilhos e purpurinas qualquer um de nós tem também um lado escuro, ou o avesso da sua alma - aquele avesso de que fala a cantiga do Rui Veloso, Lado Lunar. 

Falemos então um pouco, de obscuridade.
 Qualquer maquilhagem disfarça rugas e imperfeições da pele, ilumina o olhar e minimiza os efeitos do tempo. Ainda assim, a maquilhagem de que revestimos o nosso íntimo, nuns dias mais que noutros, apenas vai camuflando o que nos faz doer por dentro e que precisa de sair, através da respiração e dos batimentos cardíacos. A manter-se dentro de nós, maltrata-nos e transforma-nos numa pessoa de que não gostamos. 
Revisitar os nossos fantasmas é quase sempre um exercício doloroso, pelo que vamos adiando como podemos, não só para não recordar o que nos causou sofrimento, mas também porque nos dá a ideia de que somos pessoas "normais", quando o que mais queremos é ser especiais aos olhos do outro. Repetimos algumas vezes, às vezes em demasia, que não somos perfeitos, porque a perfeição nunca a conseguiremos alcançar, como dizia Dali na sua sábia loucura, e por isso escondemos os fantasmas e o lado obscuro no sótão da nossa mente. Num primeiro momento começamos por tratá-los com alguma displicência, mas apesar de todos os pós de prilimpimpim que possamos usar, eles continuam presentes, e com maior ou menor resistência, acabamos por deixar que tomem conta de nós. Na verdade eles são muito persistentes, e personagens hábeis de um filme trágico-dramático! Volta e meia fazem-se presentes ao menor desconforto, porque sabem que lhes é dada mais uma oportunidade de ensombrarem os nossos pensamentos e transformar cada segundo numa sombra negra que paira sobre a nossa cabeça, acabando por  magoar - a nós, e aos outros, que nem são personagens da história que os criou. 
Então a grande questão que me apraz perguntar, é: Como é que nos podemos libertar dos fantasmas que nos sobrecarregam? Como podemos deixar que a parte obscura da nossa alma vislumbre a luz do dia, para ganhar novas tonalidades? É minha firme convicção,  alguma dose de coragem e muita resiliência para sarar cada uma das nossas feridas (e não há quem as não tenha), destapando-as dos pensos rápidos ou emplastros que lhe colocámos. Depois para o processo de cura ser autêntico, perceber o que nos magoou, o que na grande maioria das vezes, vai voltar a doer, só que agora, sabemos estar no processo de cura, portanto dispostos a aceitar o que aí vem. Não conseguimos alterar o passado, nem o que nos magoou naquele tempo, mas como seres em evolução que somos, podemos hoje fazer diferente, e escolher o que nos ilumina, em vez de permanecer na dor do passado, que a continuar a doer, é presente! 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Conexão

Na verdade tudo (o que vale a pena) na vida acarreta algum risco, no entanto quando a vontade de viver se sobrepõe ao medo, a pessoa vai em frente, mesmo que por momentos se sinta paralisada, avalie prós e contras, chegue a pensar desistir, porque afinal somos humanos e o desconhecido é sempre algo que assusta.  

Apesar do desejo de se conhecerem, a decisão levou-os a longas conversas sobre os possíveis cenários de um encontro real, tendo como premissa “e se…”. Primeiro debateram onde se encontrariam; depois como seria quando se vissem - ilusão ou desilusão? Que diriam um ao outro? Como se comportariam em presença? Ainda numa tentativa de se libertarem de toda o receio que os assistia, recriaram o primeiro encontro uma, e outra vez, para que nada fosse deixado ao acaso, o que revelava alguma ingenuidade, porque mesmo o melhor cenários expõe alguma falha, mas que o peso das palavras trocadas virtualmente era enorme, aumentando-lhes a ansidedade. Em todos os cenários possiveis e imaginados só existia uma certeza comum: nada ficaria igual depois de se encontrarem. E se não houver química, disseram eles algumas vezes em conversas anteriores? Vai cada um à sua vida, sem ressentimentos. Se qualquer primeiro encontro entre duas pessoas acarreta algum nervosismo, imagine-se agora, o encontro de duas pessoas que se gostam, e se tornaram tão cúmplices no mundo virtual! 

E enquanto o encontro físico não surgia, o tempo ia passando, e as conversas continuavam..., o que remete para a questão seguinte: O que leva duas pessoas, que não se conhecem pessoalmente, a oferecerem parte significativa do seu tempo uma à outra? Será que por não estarem frente a frente, não se dispersam com os atributos físicos e conseguem estabelecer uma conexão mais genuína, ou pelo contrário constroem personagens, que se revelam frágeis no mundo real? Alguma destas,  seria a razão dos seus receios? Afinal já tinham passado quase dois meses em "conversa", e fossem quais fossem as suas verdades era inevitável o envolvimento que sabiam existir. 

Quase todos nós queremos encontrar uma pessoa, com a qual possamos estabelecer uma conexão com estes três atributos - mental, emocional e físico - e para que isso aconteça temos de estar disponíveis, em tempo e intenção, porque sem estes dois componentes, a conexão não acontece. É a disponibilidade de tempo que nos permite conhecer o outro, o que o comove, ou  angustia; o que o alegra ou entristece; os seus valores e crenças; virtudes e fraquezas, bem como uma paleta de emoções, quando surjem as mais diversas situações. Por outro lado, tem de existir intenção em criar essa ligação, aceitando as próprias vulnerabilidades, porque não existindo uma vontade genuína de criar laços, as pontas mantém-se soltas. É como nos damos ao outro que vai constribuir para o desenrolar dos novelos da nossa vida, construindo pontes que permitem a troca de afetos, confidências, e tudo o mais que nos apraz partilhar.

Ao fazer o checklist da conexão, perceberam que o mental existia e o emocional também. Siga...


domingo, 8 de janeiro de 2023

Encontro online

Esta história é de um outro tempo em que tanto tinha mudado. Não havia abraços, beijos ou toques, os afetos estavam suspensos e os encontros interrompidos, por isso acreditaram que se tinham encontrado acidentalmente, como se tal fosse possível, quando na realidade tudo tem um propósito para acontecer. 

O humor foi o aperitivo que tomaram em conjunto e deu o mote à troca de mensagens dos primeiros dias, até que após as apresentações e mais algumas palavras escritas, ele lhe perguntou o que procurava, ao que ela respondeu de forma simples: “alguém com quem conversar”. Vamos então conversar, já que os tempos estão difíceis para outras conversas, que não sejam virtuais. Claro que ele não disse tudo isto, mas ainda assim ela ficou contente por ter alguém com quem conversar, ainda que fosse à distância. 

Não se ficaram por aí e conversavam todos os dias...uns dias a sério, outros a brincar, outros ainda num misto de ambas. Por vezes conversas longas, outras mais curtas, mas já não podiam passar um dia sem trocar mensagens. Umas vezes a conversa era boa, outras vezes muito boa, e foram trocando frases com sentido, partilhando conteúdos de livros, informações sobre podcasts. 

Eram criativos alguns vezes, reflexivos outras tantas. Falaram de si, do que gostavam, do que os deixava indiferentes, sem julgamentos, com empatia e numa conexão onde tudo era esclarecido. Afinal já se iam conhecendo, sem nunca se terem encontrado. E os dias passavam uns a seguir aos outros, mais ou menos iguais, onde a única tónica diferente era dada pelas conversas, num crescendo de novidade. 

Um dia, ele cheio de coragem, confessou que já sentia uma atração por ela, que 
era como se conhecessem há anos. Por essa altura também ela já estava conquistada pela conversa daquele desconhecido, com quem sentia existir tanto em comum. Sem expetativas, foram desenrolando o novelo das suas vidas, às vezes emaranhadas, com um ou outro nó, que tentavam desembaraçar, mas ainda assim os laços iam-se atando e desatando num processo intenso e pragmático de diálogo construtivo. Claro que não estavam sempre de acordo, mas é nas diferenças que aprendemos a respeitar o outro. 

Ao fim de mês e meio combinaram encontrar-se porque as teclas e os ecrãs já estavam obsoletos para a necessidade que tinham de se ver, o que não evitou que essa decisão os tenha deixado quase em pânico. Não só porque se estava em plena pandemia, o que tornava a logística de um primeiro encontro mais complicada, mas porque a vida real poderia pôr tudo em causa. Pudera!!! Afinal já se tinham dado tanto, que o encontro presencial podia deitar tudo a perder, mas ainda assim foram arrojados, e arriscaram.

Luz e sombra

O que nos ilumina por dentro, fornece o combustível diário para o que refletimos do lado de fora. Não é por acaso que a maioria dos livros d...