domingo, 8 de janeiro de 2023

Encontro online

Esta história é de um outro tempo em que tanto tinha mudado. Não havia abraços, beijos ou toques, os afetos estavam suspensos e os encontros interrompidos, por isso acreditaram que se tinham encontrado acidentalmente, como se tal fosse possível, quando na realidade tudo tem um propósito para acontecer. 

O humor foi o aperitivo que tomaram em conjunto e deu o mote à troca de mensagens dos primeiros dias, até que após as apresentações e mais algumas palavras escritas, ele lhe perguntou o que procurava, ao que ela respondeu de forma simples: “alguém com quem conversar”. Vamos então conversar, já que os tempos estão difíceis para outras conversas, que não sejam virtuais. Claro que ele não disse tudo isto, mas ainda assim ela ficou contente por ter alguém com quem conversar, ainda que fosse à distância. 

Não se ficaram por aí e conversavam todos os dias...uns dias a sério, outros a brincar, outros ainda num misto de ambas. Por vezes conversas longas, outras mais curtas, mas já não podiam passar um dia sem trocar mensagens. Umas vezes a conversa era boa, outras vezes muito boa, e foram trocando frases com sentido, partilhando conteúdos de livros, informações sobre podcasts. 

Eram criativos alguns vezes, reflexivos outras tantas. Falaram de si, do que gostavam, do que os deixava indiferentes, sem julgamentos, com empatia e numa conexão onde tudo era esclarecido. Afinal já se iam conhecendo, sem nunca se terem encontrado. E os dias passavam uns a seguir aos outros, mais ou menos iguais, onde a única tónica diferente era dada pelas conversas, num crescendo de novidade. 

Um dia, ele cheio de coragem, confessou que já sentia uma atração por ela, que 
era como se conhecessem há anos. Por essa altura também ela já estava conquistada pela conversa daquele desconhecido, com quem sentia existir tanto em comum. Sem expetativas, foram desenrolando o novelo das suas vidas, às vezes emaranhadas, com um ou outro nó, que tentavam desembaraçar, mas ainda assim os laços iam-se atando e desatando num processo intenso e pragmático de diálogo construtivo. Claro que não estavam sempre de acordo, mas é nas diferenças que aprendemos a respeitar o outro. 

Ao fim de mês e meio combinaram encontrar-se porque as teclas e os ecrãs já estavam obsoletos para a necessidade que tinham de se ver, o que não evitou que essa decisão os tenha deixado quase em pânico. Não só porque se estava em plena pandemia, o que tornava a logística de um primeiro encontro mais complicada, mas porque a vida real poderia pôr tudo em causa. Pudera!!! Afinal já se tinham dado tanto, que o encontro presencial podia deitar tudo a perder, mas ainda assim foram arrojados, e arriscaram.

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