terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Conexão

Na verdade tudo (o que vale a pena) na vida acarreta algum risco, no entanto quando a vontade de viver se sobrepõe ao medo, a pessoa vai em frente, mesmo que por momentos se sinta paralisada, avalie prós e contras, chegue a pensar desistir, porque afinal somos humanos e o desconhecido é sempre algo que assusta.  

Apesar do desejo de se conhecerem, a decisão levou-os a longas conversas sobre os possíveis cenários de um encontro real, tendo como premissa “e se…”. Primeiro debateram onde se encontrariam; depois como seria quando se vissem - ilusão ou desilusão? Que diriam um ao outro? Como se comportariam em presença? Ainda numa tentativa de se libertarem de toda o receio que os assistia, recriaram o primeiro encontro uma, e outra vez, para que nada fosse deixado ao acaso, o que revelava alguma ingenuidade, porque mesmo o melhor cenários expõe alguma falha, mas que o peso das palavras trocadas virtualmente era enorme, aumentando-lhes a ansidedade. Em todos os cenários possiveis e imaginados só existia uma certeza comum: nada ficaria igual depois de se encontrarem. E se não houver química, disseram eles algumas vezes em conversas anteriores? Vai cada um à sua vida, sem ressentimentos. Se qualquer primeiro encontro entre duas pessoas acarreta algum nervosismo, imagine-se agora, o encontro de duas pessoas que se gostam, e se tornaram tão cúmplices no mundo virtual! 

E enquanto o encontro físico não surgia, o tempo ia passando, e as conversas continuavam..., o que remete para a questão seguinte: O que leva duas pessoas, que não se conhecem pessoalmente, a oferecerem parte significativa do seu tempo uma à outra? Será que por não estarem frente a frente, não se dispersam com os atributos físicos e conseguem estabelecer uma conexão mais genuína, ou pelo contrário constroem personagens, que se revelam frágeis no mundo real? Alguma destas,  seria a razão dos seus receios? Afinal já tinham passado quase dois meses em "conversa", e fossem quais fossem as suas verdades era inevitável o envolvimento que sabiam existir. 

Quase todos nós queremos encontrar uma pessoa, com a qual possamos estabelecer uma conexão com estes três atributos - mental, emocional e físico - e para que isso aconteça temos de estar disponíveis, em tempo e intenção, porque sem estes dois componentes, a conexão não acontece. É a disponibilidade de tempo que nos permite conhecer o outro, o que o comove, ou  angustia; o que o alegra ou entristece; os seus valores e crenças; virtudes e fraquezas, bem como uma paleta de emoções, quando surjem as mais diversas situações. Por outro lado, tem de existir intenção em criar essa ligação, aceitando as próprias vulnerabilidades, porque não existindo uma vontade genuína de criar laços, as pontas mantém-se soltas. É como nos damos ao outro que vai constribuir para o desenrolar dos novelos da nossa vida, construindo pontes que permitem a troca de afetos, confidências, e tudo o mais que nos apraz partilhar.

Ao fazer o checklist da conexão, perceberam que o mental existia e o emocional também. Siga...


domingo, 8 de janeiro de 2023

Encontro online

Esta história é de um outro tempo em que tanto tinha mudado. Não havia abraços, beijos ou toques, os afetos estavam suspensos e os encontros interrompidos, por isso acreditaram que se tinham encontrado acidentalmente, como se tal fosse possível, quando na realidade tudo tem um propósito para acontecer. 

O humor foi o aperitivo que tomaram em conjunto e deu o mote à troca de mensagens dos primeiros dias, até que após as apresentações e mais algumas palavras escritas, ele lhe perguntou o que procurava, ao que ela respondeu de forma simples: “alguém com quem conversar”. Vamos então conversar, já que os tempos estão difíceis para outras conversas, que não sejam virtuais. Claro que ele não disse tudo isto, mas ainda assim ela ficou contente por ter alguém com quem conversar, ainda que fosse à distância. 

Não se ficaram por aí e conversavam todos os dias...uns dias a sério, outros a brincar, outros ainda num misto de ambas. Por vezes conversas longas, outras mais curtas, mas já não podiam passar um dia sem trocar mensagens. Umas vezes a conversa era boa, outras vezes muito boa, e foram trocando frases com sentido, partilhando conteúdos de livros, informações sobre podcasts. 

Eram criativos alguns vezes, reflexivos outras tantas. Falaram de si, do que gostavam, do que os deixava indiferentes, sem julgamentos, com empatia e numa conexão onde tudo era esclarecido. Afinal já se iam conhecendo, sem nunca se terem encontrado. E os dias passavam uns a seguir aos outros, mais ou menos iguais, onde a única tónica diferente era dada pelas conversas, num crescendo de novidade. 

Um dia, ele cheio de coragem, confessou que já sentia uma atração por ela, que 
era como se conhecessem há anos. Por essa altura também ela já estava conquistada pela conversa daquele desconhecido, com quem sentia existir tanto em comum. Sem expetativas, foram desenrolando o novelo das suas vidas, às vezes emaranhadas, com um ou outro nó, que tentavam desembaraçar, mas ainda assim os laços iam-se atando e desatando num processo intenso e pragmático de diálogo construtivo. Claro que não estavam sempre de acordo, mas é nas diferenças que aprendemos a respeitar o outro. 

Ao fim de mês e meio combinaram encontrar-se porque as teclas e os ecrãs já estavam obsoletos para a necessidade que tinham de se ver, o que não evitou que essa decisão os tenha deixado quase em pânico. Não só porque se estava em plena pandemia, o que tornava a logística de um primeiro encontro mais complicada, mas porque a vida real poderia pôr tudo em causa. Pudera!!! Afinal já se tinham dado tanto, que o encontro presencial podia deitar tudo a perder, mas ainda assim foram arrojados, e arriscaram.

Luz e sombra

O que nos ilumina por dentro, fornece o combustível diário para o que refletimos do lado de fora. Não é por acaso que a maioria dos livros d...